Programação

MAR na Academia - Seminário Internacional Chamar as chamas: imagens, gestos, levantes

Este seminário internacional, que ocorrerá entre os dias 23 e 26 de novembro, aborda as dimensões estéticas das forças individuais e coletivas que são invocadas em rebeliões ou levantes. O que se busca chamar, nos diálogos aqui propostos, é aquilo que arde nas imagens surgidas desses acontecimentos. Nessa tentativa, procura-se resgatar diferentes gestos de insurgência que revoltam o mundo ou que contra ele se levantam. Impulsos que mobilizam ações e paixões, fulgurando-se numa constelação de obras por meio de imagens, palavras ou pensamentos. Complementando o seminário, a programação do evento inclui o curso "Realismos - Sobre as percepções políticas do real", com Stefanie Baumann, duas conferências de Georges Didi-Huberman e o lançamento de dois livros desse autor pela Coleção ArteFíssil, publicados pelo Museu de Arte do Rio em coedição com a Contraponto Editora. O evento, organizado por Tadeu Capistrano (UFRJ) e Georges Didi-Huberman (EHESS), é mais uma realização do Museu de Arte do Rio - MAR em parceria com o Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV) da UFRJ. 

Fogo cruzado. 2002. Ronald Duarte.

O seminário conta com o patrocínio do Governo do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura, Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro e Braskem.

Inscreva-se aqui para os dias 25 e 26 Priorizaremos, para inscrição, quem vai participar durante os dois dias do evento (participação integral).

Programação

18 a 20 de novembro
9h30 às 13h30 | Curso Realismos - Sobre as percepções políticas do real, com Stefanie Baumann

23 e 24 de novembro
9h às 13h | DESEJO E LEVANTE | Conferências de Georges Didi-Huberman

25 de novembro, quarta-feira 
Auditório do MAR

Seminário Chamar as chamas: imagens, gestos, levantes 

Haverá tradução simultânea

16h | Abertura • Tadeu Capistrano
16h30min-18h30min | Ilana Feldman e Stefanie Baumann (mediação: Lívia Flores)

“Se queres encontrar o fogo, procura-o nas cinzas": fulgores e figurações do cinema autobiográfico
Ilana Feldman
 
Seguindo a ideia proposta por Walter Benjamin de que a atividade da crítica seria uma espécie de “alquimia” que vê nas cinzas das obras de artes, nas cinzas das expressões da cultura, isto é, nos despojos de mortalidade humana, uma chama, pretendemos discutir os fulgores e as figurações do cinema autobiográfico realizado na região mais explosiva do mundo, o Oriente Médio. Nesse contexto, as obras autobiográficas do cineasta brasileiro, radicado em Israel, David Perlov, do israelense Avi Mograbi e do palestino Elia Suleiman, ao interrogarem as interseções entre as esferas pública e privada, o eu e o outro, o poético e o político, fazem das escritas de si a mais potente forma de figuração da alteridade. Para construir tal percurso crítico, analisaremos fragmentos de Diário 1973-1983 (Perlov, 1985), Vingue tudo, mas deixe um dos meus olhos (Mograbi, 2005) e O que resta do tempo (Suleiman, 2009), tendo sido as três obras realizadas em Israel, país que, marcado por dissensos políticos e conflitos milenares, tem fomentado uma das mais expressivas produções cinematográficas da atualidade. Se Perlov encarna a figura da angústia e do mal estar, Mograbi a figura do confronto e Suleiman a figura da perplexidade, a identidade de cada um dos realizadores vai se confundir com a alteridade de seus próprios personagens: pois é apenas a partir desse lugar que o radicalmente outro pode ser evocado, ouvido, entrevisto ou figurado – mesmo quando o mundo parece estar prestes a arder. Ao final, caberá perguntar o que o Oriente Médio, a zona mais midiática e conflituosa do mundo, tem a dizer sobre nosso presente traumático, entre as cinzas e as chamas, nós brasileiros que vivemos um genocídio cotidiano e silencioso, muito mais letal e infinitas vezes mais invisível do que o conflito israelo-palestino.

Olhares refletidos, chamados coletivos 
Notas sobre Chung Kuo, Cina, de Michelangelo Antonioni

Stefanie Baumann

Michelangelo Antonioni foi um dos primeiros diretores ocidentais a ser oficialmente convidado para fazer um filme sobre a China maoísta durante a Revolução Cultural. Quando Chung Kuo, Cina foi lançado, em 1972, provocou um grande número de críticas, de diferentes posições, com respeito ao seu “conteúdo de realismo”: para alguns, o filme parecia apolítico, naturalista ou ingênuo; para outros, ao contrário, propaganda antimaoísta. Todos esses críticos chineses e ocidentais condenaram o fracasso de Antonioni em representar a China de forma adequada, quer dizer, realista, i.e., levando em consideração suas condições políticas, socioeconômicas “objetivas”. Em vez de tentar decodificar as condições ideológicas subjacentes para as quais ele inegavelmente permanece um estranho – as realizações comunistas, ou a máscara da propaganda –, Antonioni concentrou-se no que era visível para ele: os rostos das pessoas, os movimentos de seus corpos, gestos coletivos que nunca reduzem as pessoas a massas anônimas, mas também as revelam como coletividades de indivíduos que, por sua vez, devolvem o olhar. Sobre suas intenções, o próprio Antonioni afirmou: “Eu não fui à China para entendê-la, mas apenas para vê-la. Para olhar para ela e gravar o que se passou diante dos meus olhos”. Sua condição mesma de estranho, portanto, é refletida nas imagens, abrindo espaço para outra compreensão complementar de “realismo”, uma tentativa de fazer o olhar e o olhar para cruzar a própria imagem.

18h30min-19h | Intervalo
19h-22h | Ludger Schwarte e Arno Gisinger (mediação: Georges Didi-Huberman)

Fogo inextinguível. Farocki: a documentação na arte e a possibilidade de testemunho indireto 
Ludger Schwarte

Esta comunicação tratará de duas questões: a primeira concerne à teoria da arte do documentário e a segunda à possibilidade do testemunho indireto. As duas questões surgem a partir da análise de Fogo Inextinguível (1969), um dos primeiros filmes de Harun Farocki. Nessa obra, ele diz a seus espectadores que exibir diretamente o material documental dos bombardeios de napalm  no Vietnã não fará com que mudem  suas cabeças por ficarem chocados.  Em vez disso, ele apaga um cigarro em seu braço enquanto olha para a câmera. Por que esse gesto de Farocki deveria nos tornar mais conscientes ou sensíveis aos acontecimentos do Vietnã em 1969? Essa pergunta pode ser transposta em termos mais gerais: como é possível que uma intervenção estética alcance uma forma de testemunho indireto mais potente do que a sóbria exibição de documentos testemunhantes? Pode-se dizer que tais gestos são as marcas distintivas que separam as estratégias documentais nas artes dos padrões documentais validados para outros meios, como o jornalismo? A partir de uma problematização da estética do documentário, minha hipótese é de que práticas não-artísticas fingem  não ser parte da cena que “documentam” e que as práticas artísticas problematizam seu envolvimento com que é apresentado por meio de gestos de estranhamento. Caso essa hipótese seja verdadeira, o que isso tem a dizer sobre a tarefa da arte contemporânea em geral? 

O exílio em faíscas: uma topografia visual de Stefan Zweig e Lotte Altmann no Brasil
Arno Gisinger

Em fevereiro de 1942, o escritor austríaco Stefan Zweig e sua segunda esposa, Lotte Altmann, cometeram suicídio em Petrópolis, seu exílio no Brasil. A exemplo da realização de uma série fotográfica sobre a sobrevivência do exílio europeu de Walter Benjamin entre 1933 e 1940 em  Konstellation Benjamin (2011), o objetivo desta pesquisa é explorar as relações entre literatura, imagem e política com um  ensaio artístico sobre Stefan Zweig. A partir do arcabouço conceitual de “Chamar as Chamas” será apresentado parte deste  projeto em curso, enfatizando a questão da memória fotográfica, o papel das  imagens e seu lampejar  na percepção do exílio. Stefan Zweig foi seguramente um dos primeiros escritores modernos a constituir sua própria imagem literária por meio da fotografia. Esta comunicação acompanhada de projeções enfocará as imagens brasileiras de Zweig no contexto de um regime escópico especial que vai até seu suicídio e além.

26 de novembro, quinta-feira
Auditório do MAR

Haverá tradução simultânea

Seminário Chamar as chamas: imagens, gestos, levantes 

15h-17h | Lívia Flores e Paula Sibilia (mediação: Tadeu Capistrano)

Arte-fatos de fogo
Lívia Flores

Oréstia, a única trilogia de Ésquilo que chegou completa até nós, abre-se com uma imagem de fogo. Graças a um engenhoso artifício urdido pela rainha Clitemnestra, a derrota de Troia e a volta do rei Agamêmnon anunciam-se através de uma sequência de fogos-lumes, que funcionam como um rastilho de pólvora. “E a chama chama a chama no correio fogoso, até aqui”. Com essas palavras, Clitemnestra convoca um acerto de contas trágico, desencadeando a interrogação política e o debate jurídico na pólis ateniense. Entretanto, o fogo aparece nesta tragédia claramente como prerrogativa do poder, o que nos leva a indagar quem detém o poder de fogo em outros episódios de luta: quem ateia fogo, com que objetivos, contra quem? Interessa-nos sobretudo perceber o que acontece quando as chamas trocam de mãos e elevam-se como apelo a uma outra ordem de mundo: cósmica, poética e política. A conferência propõe um olhar sobre esta questão a partir de três trabalhos emblemáticos da arte contemporânea brasileira: Bólide-lata, de Hélio Oiticica, 1966; Tiradentes – Totem-monumento ao preso político, de Cildo Meireles, 1970 e Fogo cruzado, de Ronald Duarte, 2009.

O erotismo na vitrine: o espetáculo ofuscou as chamas?              
Paula Sibilia

Quase meio século após a "revolução sexual" dos anos 1960-70, vemos proliferar uma diversidade de manifestações artísticas e midiáticas que evidenciam um relaxamento dos velhos tabus da "moral burguesa". São inúmeros os indícios desses deslocamentos morais e legais, tais como a exibição voluntária de corpos nus no espaço público (das ruas às redes, das artes às mídias), a legitimação de práticas antes consideradas alternativas ou até "perversas", e a expansão das estéticas pornográficas para além do seu nicho. No entanto, contrasta com esse panorama uma certa insatisfação ou apatia, inclusive certo conservadorismo, ressaltando assim a potência das experimentações mais radicais que incendiaram as décadas de 1960-1970. Naqueles tempos, Pier Paolo Pasolini vivenciou essa inquietação de uma maneira visionária, que acabou suscitando uma virada em sua própria obra. Quando aquilo que Guy Debord batizara "a sociedade do espetáculo" se delineava no horizonte da cultura ocidental, exibir a sexualidade de forma crua e nua parecia uma estratégia liberadora com relação às armadilhas de tais miragens, mas logo o artista italiano percebeu que essas imagens podiam se converter, elas também, em matéria de consumo espetacular. Alguns anos antes, Georges Bataille tinha apontado o laço visceral que une o erotismo à proibição e à morte, lançando um desafio que cintila até hoje. Se essas questões espinhosas agora soam incômodas, não é porque a nossa moralidade procure abafá-las pudicamente, mas tudo o contrário: desconfiamos, com surdo pesar, que as labaredas que então foram acesas com tanto entusiasmo talvez tenham se extinguido.

17h30min-18h | Intervalo

18h-20h | Martin Albornoz e Christian Ferrer (mediação: Paula Sibilia)

O incêndio anarquista
Martín Albornoz

Em 1895, um jornal anarquista editado na cidade de Buenos Aires, publicou um chamado aos oprimidos nos seguintes termos: “levante-se, povo tiranizado e abatido; levante-se e rompa as cadeias que te oprimem. Agarre com firmeza o punhal, e a faca, e o ferro, e, ofegante, crave-o no peito de seus tiranos, e degole sem piedade seus carrascos. Banhe seus palácios e luxuosos edifícios com petróleo e atire um fósforo. Fabrique bombas aos milhares e, impetuoso como o furacão à solta, lance-as nos teatros, cafés, tribunais e demais lugares onde se reúnem seus exploradores, e que os gritos e lamentos, a fumaça, as chamas do incêndio, devorando tudo, o estalido das bombas que rebentem assoladoras, e sua algazarra de júbilo triunfante, formem um quadro, vasto, aterrador, mas sublime; porque dentro dele está o germe que dará vida e desenvolvimento à felicidade humana”. O fragmento, em sua dramaticidade, percorre grande parte do imaginário anarquista em torno de um apocalipse redentor e purificador, cujos antecedentes imediatos foram a série de atentados com bombas que sacudiu, pela via do temor e da fascinação, a sociedade europeia em fins do século XIX e nos primeiros anos do século XX. A apresentação tentará, justamente, reconstruir o regime visual das formas nas quais a imprensa ilustrada popular europeia e latino-americana tentou captar e representar a recusa radical da ordem social e cultural que implicou o anarquismo em 1900.

Quantos mortos são necessários para que um massacre nos chame a atenção?
Christian Ferrer

As matanças sucedidas em lugares remotos do mundo passam despercebidas ou se desvanecem com o correr dos dias. Entretanto, os indícios do ocorrido estão ao nosso redor, signos alarmantes aos quais só se concede o estatuto de anedota. Quantos mortos são necessários para que uma massacre nos chame a atenção? A mera denúncia não basta. É o modo de narrar o que ativa nossa sensibilidade e sentido da justiça, o modo de introduzir detalhes, episódios laterais, extravagâncias e acontecimentos aparentemente não vinculados entre si. Às vezes, basta o nome de uma rua, a efígie de uma moeda, inclusive um êxito da indústria cultural, para que a curiosidade conduza a puxar o fio de um novelo em cujo centro há um drama imenso. O que é um indício? Um rastro, um símbolo que se vislumbrou, um objeto que a outros poderá parecer não essencial, mas ao qual acrescentamos um mistério, e tudo isso são nexos que podem reunir biografia, obra artística e história. Tomando como exemplo o Timor Leste, é preciso interrogar o nome de uma rua na cidade de Buenos Aires, um filme do australiano Peter Weir, um dragão-de-komodo impresso num selo, uma estrela na calçada da fama de Hollywood, a criação de uma micronação artística por um artista neozelandês, os Prêmios Nobel da Paz do ano de 1996, os intercâmbios de ilhas entre Holanda e Portugal, a King Kong e ao milhão de mortos assassinados entre 1966 e 2002 numa zona oriental do Sudeste Asiático.
 

20h-20h30min | Intervalo
20h30min-22h | Encerramento com Georges Didi-Huberman

As mensagens das borboletas
Georges Didi-Huberman

As borboletas simplesmente morrem em meio à chama que as atrai. Pode ser que as borboletas levantem o mundo e ateiem fogo às consciências. É o caso desses objetos que em francês nomeamos “papillons” (em português, borboletas) e que designam os tratos políticos dos quais daremos alguns exemplos, de Spinoza e Büchner à Resistência francesa ou ao filme de Mikhaïl Kalatozov, Soy Cuba.

Lançamento de livros

Durante todo o evento 

Invenção da Histeria: Charcot e a Iconografia Fotográfica de Salpêtrière, de Georges Didi-Huberman (Coleção Artefíssil - MAR e Contraponto Editora)
A Semelhança Informe: ou o Gaio Saber Visual Segundo Georges Bataille, de Georges Didi-Huberman (Coleção Artefíssil - MAR e Contraponto Editora)

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